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Alunos pedem para ser reprovados

Jair Ferreira, 21, pediu para ser reprovado na 3ª série do ensino médio por não se sentir preparado para passar de ano. Cristiane Baraúna, 18, não sabe regras básicas de ortografia, mas, mesmo assim, concluiu o ensino médio após entregar um trabalho em grupo.

S.G., 17, tem o mesmo nível de formação e confessa que ainda se confunde na tabuada. V.C., 17, sua amiga, não faz idéia do que ocorreu no golpe de 64.

Moradores do Jardim ângela (zona sul), esses jovens dividem o sonho de cursar uma faculdade. Para isso, tentam se preparar em um cursinho pré-vestibular gratuito do MSU (Movimento dos Sem Universidade).

Na noite da última quinta-feira, a Folha assistiu a uma aula de física dada por uma ex-aluna do MSU a um grupo de 60 estudantes, que sempre estudaram em escolas públicas e tentam ingressar no ensino superior.

"Só quando fazemos o primeiro vestibular é que percebemos a distância que existe entre o que aprendemos na escola que freqüentamos e o que é exigido [no processo seletivo]", afirma o aluno Maurício Silva, 19.

Essa distância é percebida no próprio processo que selecionou os candidatos para as aulas do cursinho do MSU. Dos 1.070 inscritos, apenas 370 tiveram condições de passar.

A Folha teve acesso às provas feitas pelos alunos. O resultado é, no geral, desalentador.

Para a pergunta sobre o que foi o golpe de 64, por exemplo, há respostas do tipo "foi uma briga entre os escravos", "foi a revolução industrial", "foi quando ocorreu o comunismo e o nazismo", "foi a compra de mercadorias trazidas do norte da América", "foi quando Getúlio Vargas tomou o poder".

Na maioria das redações há erros gramaticais crassos e falta de coerência no texto. "é difícil acreditar que estudaram 11 anos e têm diploma do ensino médio. De cada 50 redações, dá para salvar no máximo três", afirma Eduardo Chaves, um dos coordenadores do MSU.

História, biologia e conhecimentos gerais também são pontos fracos. "Eles confundem o golpe de 64 com a revolução de 30 e a era Vargas", diz Sérgio Custódio, coordenador nacional do MSU. Segundo ele, os alunos não entendem o que lêem e, então, não conseguem construir um texto coerente.

Os estudantes assinam embaixo: "Fiz o ensino médio, mas confesso que me sinto despreparada e envergonhada com a falta de conhecimento", afirma Soraia Gomes, 20.

A colega Juliana Sousa, 21, conta que tentou prestar um concurso nos Correios que exigia ensino médio, mas desistiu quando viu a prova. "Tinha um monte de coisa que eu nunca tinha estudado na vida", afirma.

Embora esteja num pré-vestibular, ela conta que está prestando concursos que exigem apenas o ensino fundamental. "é mais garantido."


fonte: Folha de S.Paulo Online
 
 
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